CONCEITOS: PROPÓSITO ÉPICO E COLABORAÇÃO (McGonigal, 2011)
CONCEITOS: PROPÓSITO ÉPICO E COLABORAÇÃO (McGonigal, 2011)
No livro Reality Is Broken: Why Games Make Us Better and How They Can Change the World (2011), de Jane McGonigal, propósito épico (epic meaning) refere-se a um tipo de significado profundo que jogos (e experiências gamificadas) conseguem gerar ao fazer com que as ações de uma pessoa pareçam parte de algo maior do que ela mesma — um objetivo que transcende interesses pessoais imediatos e conecta o jogador a uma causa coletiva, inspiradora e de grande escala.
Propósito épico é a sensação de que suas ações contribuem para um projeto, missão ou narrativa de grande importância, que imbuem o esforço individual de sentido e motivação porque conectam o participante a algo maior (“épico”), gerando engajamento e inspiração que muitas vezes faltam na vida real.
Essa ideia está ligada à crença de que jogos bem desenhados conseguem fazê-lo sentir que seu comportamento tem impacto num universo mais amplo — exatamente aquilo que McGonigal considera crucial para transpor a falta de motivação do mundo real e direcioná-la para causas sociais ou coletivas maiores.
1. Propósito épico (epic meaning)
Para Jane McGonigal, propósito épico é a percepção de que nossas ações fazem parte de algo maior, significativo e coletivo, com impacto que transcende o interesse individual. Ele responde à pergunta: “Por que isso importa?”
2. Colaboração (collaboration)
McGonigal define colaboração como a experiência de trabalhar junto com outras pessoas para superar desafios, combinando habilidades, esforços e perspectivas em direção a um objetivo comum. Ela responde à pergunta: “Com quem e como eu faço isso?”
Relação entre propósito épico e colaboração
Em McGonigal, não existe propósito épico sustentável sem colaboração. A relação pode ser descrita em três níveis:
1️⃣ O propósito épico exige escala
Um objetivo só é percebido como “épico” quando:
É grande demais para uma pessoa sozinha
Envolve múltiplos agentes
Depende de esforços distribuídos
A colaboração é o mecanismo prático que torna o propósito épico possível.
2️⃣ A colaboração ganha sentido por meio do propósito épico
Trabalhar junto pode ser cansativo, complexo e conflituoso. O que mantém as pessoas engajadas, segundo McGonigal, é a sensação de que:
A cooperação não é apenas eficiente
Ela é necessária para algo maior
O propósito épico transforma colaboração em missão, não apenas em divisão de tarefas.
3️⃣ Jogos criam “comunidades de propósito”
McGonigal observa que jogos bem-sucedidos:
Oferecem desafios coletivos claros
Mostram como cada contribuição individual afeta o todo
Criam identidade compartilhada (“somos jogadores dessa missão”)
A colaboração, nesses contextos, não é opcional — ela é a forma natural de participação no propósito épico.
Síntese conceitual
Para Jane McGonigal, o propósito épico fornece o “porquê” da ação coletiva, enquanto a colaboração fornece o “como”; juntos, eles criam engajamento profundo, persistente e socialmente significativo.
Sem propósito épico, a colaboração tende a virar obrigação ou burocracia.
Sem colaboração, o propósito épico vira discurso abstrato, sem impacto real.
Quando ambos coexistem, as pessoas sentem que pertencem, importam e fazem diferença.
MOTIVAÇÃO INTRÍNSECA x MOTIVAÇÃO EXTRÍNSECA (Chou, 2015)
Motivação intrínseca é o impulso para agir pelo prazer, significado ou satisfação inerente à própria atividade, sem depender de recompensas externas.
A pessoa faz porque quer, porque gosta, porque acredita ou porque se sente realizada.
Motivação extrínseca é o impulso para agir em função de recompensas externas ou da evitação de punições, que não estão na atividade em si, mas em suas consequências.
A pessoa faz para ganhar algo ou para não perder algo.
Para Jane McGonigal e Yu-kai Chou, o propósito épico ativa a motivação intrínseca porque:
Dá significado à ação
Faz o indivíduo sentir que foi “chamado” para algo maior (calling)
Conecta o esforço pessoal a um impacto coletivo
A pessoa age porque acredita que aquilo importa, não porque será recompensada.
O propósito épico não elimina a motivação extrínseca, mas a reconfigura:
Pontos, níveis e recompensas passam a ser sinais de contribuição
O foco deixa de ser “ganhar algo” e passa a ser “avançar a missão”
A recompensa vira feedback simbólico, não o objetivo final
A motivação extrínseca deixa de ser o fim e vira o meio.
Sem propósito épico:
“Faça isso para ganhar pontos.”
Com propósito épico:
“Faça isso porque sua ação ajuda a transformar algo que importa."
GAMIFICAÇÃO COM INTENCIONALIDADE PEDAGÓGICA (Dickmann, 2021)
Em uma de suas primeiras publicações ("Start: como a gamificação e os jogos de aprendizagem estão transformando a práxis educativa atual com suas dinâmicas inovadoras e criativas", 2021), Ivânio Dickmann reuniu e organizou reflexões e práticas que explicam a gamificação aplicada à educação de forma pedagógica e proposital, ou seja, com intenção educativa clara.
1. Gamificação com intencionalidade pedagógica
Gamificação com intencionalidade pedagógica é o uso consciente e planejado de elementos de jogos a serviço de objetivos educacionais claros, formativos e éticos — e não como mero recurso motivacional superficial. O foco não é o jogo, mas:
a aprendizagem,
o desenvolvimento humano,
o sentido do que se aprende.
2. Relação com o propósito épico (McGonigal, 2011)
Para Jane McGonigal, propósito épico é a sensação de que a ação individual:
contribui para algo maior,
tem significado coletivo,
ultrapassa recompensas imediatas.
A intencionalidade pedagógica fornece o “porquê educativo”; o propósito épico fornece o “porquê existencial”.
A gamificação pedagógica com propósito épico conecta conteúdos escolares a:
impacto social,
transformação pessoal,
responsabilidade coletiva.
Sem propósito épico, a gamificação pode virar apenas “atividade divertida”.
Com propósito épico, a aprendizagem ganha sentido transcendente.
3. Relação com motivação intrínseca e extrínseca (Chou, 2015)
Yu-kai Chou diferencia dois tipos de motivação:
🔹 Motivação extrínseca
Pontos, níveis, prêmios, rankings
Feedback externo e progresso visível
🔹 Motivação intrínseca
Significado
Autonomia
Criatividade
Pertencimento
4. Integração dos três conceitos
A gamificação com intencionalidade pedagógica:
1️⃣ Usa motivação extrínseca como estrutura
Pontos organizam o percurso
Níveis sinalizam progresso
Recompensas funcionam como feedback
2️⃣ Prioriza motivação intrínseca como finalidade
Aprender faz sentido
O estudante se sente competente e pertencente
A atividade é significativa em si
3️⃣ É sustentada pelo propósito épico
O aluno entende por que aprender aquilo importa
O conteúdo é ligado a algo maior que a nota ou aprovação
Resultado de 17 anos de pesquisas em gamificação e estudos de design do comportamento, o Modelo Octalysis (ou, do original, Octalysis Framework) foi idealizado por Yu-kai Chou, autor e consultor taiwanês-americano, uma das maiores referências na área de Gamificação atualmente. Clique aqui.
Aproveite e baixe aqui o guia de bolso da gamificação, especificamente sobre o Modelo Octalysis e assista à videoaula sobre Octalysis aqui!
Jane McGonigal, PhD, game designer mundialmente conhecida por seus trabalhos envolvendo jogos de realidade alternativa, ou seja, jogos que são projetados para melhorar vidas reais e resolver problemas reais. Quer conhecer mais? Clique aqui.
Ivanio Dickmann é um historiador, educador e pesquisador brasileiro, amplamente reconhecido por sua atuação nas áreas de Educação Popular, Gamificação e no estudo do legado de Paulo Freire. Atualmente, ele se destaca como um dos principais especialistas em metodologias ativas e inovação pedagógica no Brasil.
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